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10/03/2008 15:12

Como anda o }Prazer???????

Saúde

Como anda o prazer

02/03/2008


Curiosamente, uma das principais conquistas femininas das últimas décadas, tratando-se de sexualidade, é a palavra. Hoje, elas podem falar de seus desejos, frustrações, emoções, problemas e dúvidas. Têm a liberdade de expor seus sentimentos - os quais, para a mulher, estão intrinsecamente ligados ao sexo. Aliás, faz tempo que o prazer sexual - ou a falta dele - passou a fazer parte da roda de conversas femininas.

“A mulher se calava por se culpar pela falta de prazer”, avalia a ginecologista e obstetra Albertina Takiuti, especialista em saúde da mulher e coordenadora do Programa de Saúde do Adolescente da Secretaria Estadual da Saúde. “Com o fim do pacto do silêncio, as dúvidas se tornaram coletivas e, portanto, reivindicatórias. Em vez de achar que tinha um problema grave, porque o marido a acusava de ser fria, ela começou a questionar se sua falta de prazer estava associada a alguma dificuldade dela ou do parceiro.”

Com as conquistas profissionais em plena ascensão, as mulheres agora lutam por mais qualidade e prazer na cama. Quando a psiquiatra Carmita Abdo fundou o Projeto Sexualidade (ProSex) do Instituto de Psiquiatria do HC, no início da década de 1990, para cada sete homens que procuravam tratamento de disfunção sexual, apenas uma mulher tomava essa atitude. Hoje, quase 20 anos depois, para cada dois homens, uma mulher recorre ao serviço do ProSex. A mudança é comemorada com entusiasmo pela médica:

- Nos vários campos da saúde, sempre há mais mulheres do que homens procurando tratamento. Mas, com relação ao sexo, eles - sempre preocupados com o desempenho - eram os que mais buscavam orientação médica. Não é à toa que surgiram mais medicamentos específicos para eles do que para elas. Atualmente, atendemos predominantemente homens entre 40 e 50 anos, enquanto que as mulheres estão na faixa dos 20 e 30 anos. Por serem mais novas, têm menos restrições e constrangimento, são informadas e querem usufruir melhor do sexo.

Disfunção erétil e ejaculação precoce são os grandes tormentos dos homens que procuram tratamento. Já as mulheres acima de 45, na maioria, reclamam da falta de desejo, sobretudo com a chegada do climatério, que prenuncia a menopausa. As mais novas buscam ajuda por sentirem dificuldade de atingir o orgasmo. Pesquisa coordenada por Carmita, intitulada O Estudo da Vida Sexual do Brasileiro, aponta que 26,2% das mulheres têm esse problema, que é mais acentuado entre as mais jovens, até os 25 anos, e entre as que têm mais de 61 anos.

A repressão sexual à qual muitas foram submetidas prejudica o prazer feminino. Mas a obsessão das mulheres pelo orgasmo também pode atrapalhar. Entre as entrevistadas na pesquisa, 32,5% iniciaram-se sexualmente preocupadas em atingir o clímax. Quando isso ocorre, deixam de aproveitar outros momentos do sexo. Porém, Carmita vem acompanhando um número significativo de mulheres que, embora procure tratamento, já se desvencilhou dessa obrigação.

Mais: em vez de se culparem, elas começam a questionar se a falta de orgasmo não é conseqüência da inabilidade masculina. Alguns dados podem confirmar essa hipótese. De acordo com o estudo do ProSex, 45% dos homens brasileiros não estão totalmente satisfeitos com sua capacidade de ereção, e 26% andam insatisfeitos com o controle da ejaculação. Enfim, poucos lidam com a sexualidade de maneira tranqüila. “Os números mostram que o homem não consegue se desenvolver bem no sexo”, observa Carmita. “Não por egoísmo, como se acredita, mas porque ele está tão preocupado com o próprio desempenho que acaba não dando atenção à parceira.”

NA MÍDIA

Não é à toa que a mulherada tem colocado a boca no trombone. No filme Mulheres Sexo Verdades e Mentiras - que foi exibido em janeiro nos cinemas, e será lançado em DVD no segundo semestre -, o autor e diretor Euclydes Marinho especula sobre a sexualidade feminina, unindo uma história fictícia a depoimentos reais de mulheres. A atriz Júlia Lemmertz assume o papel da divorciada que descobre o prazer sexual. A partir desse mote, a própria personagem faz um documentário, no qual insere as declarações reveladoras e sem pudores das entrevistadas.

“Não esperava que as mulheres falassem com tanta franqueza e disposição sobre sua sexualidade”, confessa Marinho. “Esta inquietude revela como elas estão insatisfeitas com seus parceiros. Pensei em fazer também um filme sobre a sexualidade masculina, mas desisti porque os homens não falam sobre suas dúvidas e frustrações. Quando se reúnem, o máximo que conseguem é contar quem comeram e quem não comeram.”

Essa dificuldade de diálogo entre homens e mulheres, além das queixas femininas, inspiraram o ator e diretor Darson Ribeiro a escrever sua primeira peça, a divertida Herótica (com “h” mesmo) - Cartilha Feminina para Homens Machos, em cartaz e com casa cheia de casais e mulheres. Darson e as atrizes Karina Barum, Márcia Manfredini e Iná de Carvalho ensinam o bê-á-bá sexual para os corajosos que encaram as alfinetadas femininas, sempre com muito humor.

“Saí em defesa das mulheres”, afirma Ribeiro. “Quando dirigi a peça Oito Mulheres, no Rio de Janeiro, convivi intensamente com as atrizes. Compartilhei de suas intimidades, com conversas que iam da meia furada, menstruação a relacionamento. Além delas, minhas principais amigas, que não são atrizes - uma de 41 e outra de 52 anos - estão solteiras e reclamam muito dos homens na cama. Dizem que eles só sabem introduzir. Percebi como a conduta masculina difere das expectativas femininas, que querem mais erotismo do que sexo básico.”

Além de reivindicarem mais prazer e mais qualidade, as mulheres vêm derrubando tabus. Um deles refere-se à masturbação. Se antes a busca pelo prazer solitário era motivo de culpa - ou algo escondido por muitas -, hoje, isso mudou. Não é raro surgir, nos papos entre amigas, indicação de acessórios, como tipos de vibradores, e de outras técnicas de excitação.

“Elas aceitam mais a prática, porque sabem que têm direito a todas as formas de prazer sexual”, ressalta a sexóloga Regina Navarro Lins, psicanalista e autora de diversos livros, entre os quais, A Cama na Varanda - Arejando Nossas Idéias a Respeito de Amor e Sexo (Editora Best Seller) e O Livro de Ouro do Sexo (Ediouro). “As mudanças profundas são lentas e graduais, e só são percebidas quando implantadas”, lembra Regina. “Por isso que ainda nos deparamos com pessoas que desaprovam e não vivenciam os avanços.” A médica Albertina também confirma a nova forma de encarar a masturbação: “Agora elas sabem que a prática é muito importante para o autoconhecimento.”

A menopausa, que era sinônimo de velhice e estigmatizava a mulher por não poder engravidar, é tratada hoje com naturalidade e sem sobressalto. Por trás da mudança, Carmita Abdo vê uma grande revolução sexual: “No início do século 20, a expectativa de vida da brasileira era de 58 anos. Neste século, saltou para 78. Portanto, a queda brusca de hormônios, que antes surgia no fim da vida da mulher, agora incide no meio de sua vida.” Junte-se a isso a controversa reposição hormonal e o afinco no cuidado à saúde, para acreditarem que sua sexualidade não acaba com a idade.

MELHOR IDADE

Mais qualidade de vida, longevidade e recursos como Viagra e reposição hormonal estão dando suporte à separação de muitos casais mais velhos. Esse fenômeno ganhou o nome de “divórcio grisalho”, de acordo com reportagem publicada no jornal The New York Times, pois acontecem entre pessoas de 55 a 80 anos. Mas o fator que está por trás dessa reviravolta é, indiscutivelmente, a crescente independência econômica das mulheres. Para a psicanalista e sexóloga Regina Navarro Lins, com recursos financeiros, a mulher não precisa mais “arrastar” um relacionamento desgastado por anos. Agora o que elas querem, independentemente da idade, é buscar seus prazeres pessoais, inclusive os sexuais.

No entanto, como atesta Albertina Takiuti, em alguns tópicos, as mulheres não conseguiram avançar. Ainda persiste, em grande parte, o medo de não agradar ao parceiro. Este tipo de insegurança continua escravizando a mulher com relação ao seu prazer sexual, afinal, ela deposita no outro a valorização de si mesma. Para a médica, isso comprova que ela ainda não descobriu a sua força:

- A baixa auto-estima está associada a um índice de aumento de 13% de gravidez na adolescência. O fato de conhecerem os métodos contraceptivos não garante a mudança de comportamento. O que está precário é a negociação com o parceiro. Muitas temem desagradá-lo ao exigir segurança, com preservativo. As mulheres se apoderaram de tantas técnicas de beleza para ficarem mais bonitas, mas não conseguiram garantir sua própria segurança no sexo - seja para evitar gravidez, seja para evitar doenças sexualmente transmissíveis que vêm crescendo entre elas. Nos anos de 1980, para 80 homens soropositivos, apenas uma mulher era infectada por HIV. Hoje, a proporção é de dois para um.

PAPAI-E-MAMàE

O liberalismo sexual e alguns ganhos concretos são restritos a um pequeno universo de pessoas, aquelas mais escolarizadas e que residem nos grandes centros urbanos. É o que mostra pesquisa realizada pelo sociólogo Alberto Carlos Almeida, que foi publicada no livro A Cabeça do Brasileiro (Editora Record), de sua autoria. “O Brasil é o país do papai-e-mamãe”, constata. Segundo ele, diante de um expressivo contingente de pessoas de baixa escolaridade, percebe-se um alto grau de conservadorismo com relação a sexo.

Conforme levantamento, homossexualismo, masturbação, sexo oral e anal são desaprovados pela maioria da população. Principalmente pelas mulheres, estatisticamente mais conservadoras do que os homens. “Costumo brincar nas minhas palestras, dizendo que a família é brochante”, fala Almeida. “A mulher, independentemente da escolaridade, é a peça-chave dessa instituição e, quando tem filhos, costuma seguir a cartilha das regras familiares conservadoras. Portanto, a liberalidade sexual está mais presente num pequeno grupo, que faz bastante barulho.”

O conservadorismo perde força, porém, entre os jovens, escolarizados e moradores dos grandes centros urbanos. Há uma diferença abissal entre as mulheres mais novas, quando comparadas às mais velhas. Segundo Carmita Abdo, a separação de sexo e amor já começa a despontar entre garotas na faixa dos 20 anos. Por conta disso, usufruem da sexualidade com mais liberdade, têm mais parceiros e adiam o casamento.

“As com mais de 50 anos vêem nessa nova geração perdas amorosas, uma vez que a falta de compromisso dos relacionamentos atuais deixa a mulher com a sensação de desamparo e de poucas trocas sentimentais - bem diferente do que essas cinqüentonas viveram na juventude”, observa Carmita. “Como as mais jovens não tiveram o mesmo referencial das mais velhas, elas não têm essa dimensão negativa. No meio disso, estão as de 40 anos, que viveram o modelo de troca das relações amorosas, mas também se depararam com a liberdade do sexo sem compromisso, mas sentem dificuldade de encarar essa nova forma de se relacionar.”
enviada por * Déh*Dra Albertina






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